Tabela NEAD e ABEMID: como a elegibilidade define o custo da atenção domiciliar

Entre 12 e 24 horas de enfermagem no domicílio, a diferença de custo para a operadora é de um plantão inteiro por dia, todos os dias, enquanto o paciente estiver em internação domiciliar. Muitas vezes, quem decide de que lado da linha o paciente fica é uma soma de pontos na tabela NEAD ou na tabela ABEMID.

As duas aparecem com frequência em manuais de fontes pagadoras e contratos de home care. A tabela NEAD tem o nome oficial de Tabela de Avaliação para Planejamento de Atenção Domiciliar; a tabela ABEMID, de Tabela de Avaliação de Complexidade Assistencial. Ambas convertem o quadro clínico em pontuação e a pontuação em modalidade de atendimento. Não há norma da ANS que imponha uma tabela específica: elas são referências de mercado, adotadas em contratos, manuais de credenciamento e protocolos de regulação.

Como a tabela NEAD funciona

A tabela do NEAD, o Núcleo Nacional das Empresas de Serviços de Atenção Domiciliar, é organizada em três grupos. A descrição a seguir segue a reprodução publicada pelo Pró-Saúde, o programa de saúde dos servidores do TJDFT. A cartilha do Serviço de Atenção Domiciliar da PMDF cita a versão de 2016.

O Grupo 1 trata da elegibilidade e faz três perguntas: se o paciente tem cuidador em período integral, se o domicílio é livre de risco e se existe algum impedimento para ele se deslocar até a rede credenciada. Um “não” em qualquer delas leva a tabela a orientar: considerar contraindicar a atenção domiciliar.

O Grupo 2 lista os critérios de indicação imediata de internação domiciliar: alimentação parenteral; aspiração de traqueostomia ou de vias aéreas inferiores; ventilação mecânica contínua, invasiva ou não; e hipodermóclise ou medicação parenteral. Nos três primeiros, uso por mais de 12 horas por dia indica internação de 24 horas, e até 12 horas por dia, internação de 12 horas. Na medicação parenteral, a linha fica em cinco vezes por dia: acima disso, 24 horas; até cinco, 12 horas. A instrução da tabela é considerar a maior complexidade assinalada, ainda que uma única vez.

O Grupo 3 soma pontos por dependência, risco e necessidade técnica. De 12 a 17 pontos, a indicação é internação domiciliar de 12 horas; com 18 pontos ou mais, de 24 horas. Abaixo de 12, a tabela orienta considerar atendimento domiciliar multiprofissional, que pode incluir procedimentos pontuais, sem enfermagem em tempo integral.

Como a tabela ABEMID funciona

A tabela da ABEMID, a Associação Brasileira de Empresas de Medicina Domiciliar, pontua sete itens: suporte terapêutico, quimioterapia, suporte ventilatório, lesão vascular ou cutânea, grau de atividade da vida diária, dependência de reabilitação e terapia nutricional.

Na versão publicada pelo Pró-Saúde, abaixo de 7 pontos o paciente não é elegível; de 8 a 12 pontos, é de baixa complexidade; de 13 a 18, de média; acima de 19, de alta complexidade. A reprodução deixa 7 e 19 pontos sem faixa definida, e o contrato deve dizer como classificar esses casos.

A ABEMID tem uma regra que pesa direto no custo. Um único item com pontuação 5 leva o paciente automaticamente para média complexidade, e dois ou mais itens com pontuação 5 levam para alta complexidade, com enfermagem 24 horas.

NEAD e ABEMID lado a lado

Tabela NEADTabela ABEMID
Nome oficialTabela de Avaliação para Planejamento de Atenção DomiciliarTabela de Avaliação de Complexidade Assistencial
LógicaElegibilidade, critérios de indicação imediata e soma de pontosSoma de pontos em sete itens, com migração automática de faixa
ResultadoAtendimento domiciliar multiprofissional ou internação domiciliar de 12 ou 24 horasNão elegível, baixa, média ou alta complexidade
Ponto de atençãoUm “não” no Grupo 1 leva a considerar contraindicar a atenção domiciliar; no Grupo 2, vale a maior complexidade assinaladaUm único item com pontuação máxima muda a faixa

Como as fontes pagadoras usam as tabelas

Os manuais públicos de autogestões ajudam a ver o uso no dia a dia. O Pró-Saúde publica as duas tabelas como referência para os credenciados. O manual de atenção domiciliar do SIS, do Senado Federal, amarra a complexidade à carga de técnico de enfermagem: 6 horas por dia na baixa, 12 na média e 24 na alta, com suporte ventilatório quando necessário.

Nas operadoras reguladas pela ANS, o contrato tem papel central. A RN nº 465/2021 trata, no art. 13, da internação domiciliar que a operadora oferece em substituição à internação hospitalar, e manda seguir as normas da Anvisa, hoje a RDC 917/2024. Quando a atenção domiciliar não substitui uma internação, diz o parágrafo único, ela segue “a previsão contratual ou a negociação entre as partes”.

Algumas operadoras oferecem atenção domiciliar como benefício extracontratual e usam critérios de elegibilidade para decidir quem entra. A Unimed-BH é um exemplo: descreve o serviço assim e lista critérios que lembram o Grupo 1 da NEAD, como estabilidade clínica, dependência funcional, consentimento da família e cuidador em tempo integral.

Um exemplo de como um ponto muda a conta

Considere um paciente com 11 pontos na tabela ABEMID, somados todos os itens. Pela faixa, ele seria de baixa complexidade. Aplicando a essa faixa a carga que o manual do SIS associa à baixa complexidade (o manual não informa qual tabela usa), seriam 6 horas de técnico de enfermagem por dia.

Agora suponha que, dentro desses 11 pontos, o suporte ventilatório tenha recebido pontuação 5. A regra de migração automática leva o paciente para média complexidade, com 12 horas diárias. Se a terapia nutricional também tiver recebido 5, são dois itens com pontuação máxima, e o paciente passa para alta complexidade, com enfermagem 24 horas.

Entre 6 e 24 horas, a diferença é de 18 horas de técnico por dia, 540 horas num mês de 30 dias, para o mesmo paciente. Por isso a pontuação de cada item tem de estar sustentada na evolução, e a reavaliação periódica tem retorno direto no custo.

Onde a avaliação de elegibilidade costuma falhar

Avaliar uma vez e nunca mais

O paciente entra em 24 horas e continua em 24 horas seis meses depois, sem que ninguém tenha refeito a pontuação com a mesma tabela. A falta de reavaliação é o caminho mais curto para pagar por uma carga que o quadro já não exige. O inverso também acontece: o paciente piora, a pontuação não é refeita e a equipe trabalha acima do que foi autorizado.

Duas versões para o mesmo paciente

O prestador avalia com uma versão da tabela e o auditor com outra, ou cada um interpreta “dependência” de um jeito, e a discussão passa a ser opinião contra opinião. O contrato deveria dizer qual tabela e qual versão valem, e a operadora ganha quando treina a rede para aplicá-la do mesmo modo.

Pontuação sem registro que a sustente

Ponto na tabela precisa de lastro no prontuário. Se o suporte ventilatório soma pontos na ABEMID, a evolução de enfermagem deve mostrar esse suporte no dia a dia. Pontuação que não aparece na evolução é a primeira a ser contestada numa auditoria.

Desmame sem plano

Reduzir de 24 para 12 horas sem critério gera insegurança para a família e risco de reinternação. Desmame pede meta, prazo e acompanhamento. A taxa de internação após atenção domiciliar, um dos cinco indicadores obrigatórios da RDC 917, mostra se a redução está sendo feita com segurança.

O que muda quando toda a rede usa a mesma tabela

Com prestadores e auditoria aplicando a mesma tabela, na mesma versão e com registro estruturado, a operadora passa a comparar prestadores: a distribuição de pacientes por complexidade, a frequência das reavaliações e quanto tempo cada perfil fica, em média, em internação domiciliar. Se um prestador concentra muito mais pacientes em 24 horas do que outro com carteira de perfil parecido, a diferença pede uma conversa, agora apoiada em dados.

É esse tipo de leitura que sustenta a auditoria em home care, tema do próximo artigo da série. A comparação depende de dados reunidos no mesmo formato, assunto do nosso texto sobre integração de dados na saúde suplementar.

O prontuário multiprofissional da SpinCare registra avaliações e escalas clínicas de forma estruturada, o que permite reaplicar as mesmas avaliações ao longo do tratamento e acompanhar a evolução de cada paciente. Além das tabelas padrão pré-definidas no sistema, você pode montar uma tabela customizada, com incrementos à outras ou uma desde o princípio.  É o tipo de registro que sustenta a governança de operadoras com serviço próprio ou rede credenciada.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre a tabela NEAD e a tabela ABEMID?

A NEAD combina critérios de elegibilidade, critérios de indicação imediata e soma de pontos, e aponta atendimento domiciliar multiprofissional ou internação domiciliar de 12 ou 24 horas. A ABEMID soma pontos em sete itens e classifica o paciente em baixa, média ou alta complexidade, com regras de migração automática de faixa.

A operadora é obrigada a usar a tabela NEAD?

Não há norma da ANS que imponha uma tabela específica. As tabelas são referências de mercado, adotadas em contratos, manuais de credenciamento e protocolos de regulação.

De quanto em quanto tempo o paciente deve ser reavaliado?

Depende do contrato. Na PMDF, por exemplo, o relatório de prorrogação é mensal. O ideal é reaplicar a mesma tabela nesse ciclo.

A pontuação substitui a indicação médica?

Não. A tabela organiza e documenta a decisão sobre modalidade e carga horária; a indicação continua sendo clínica.

O que a RN 465/2021 diz sobre internação domiciliar?

No art. 13, que a operadora que oferece internação domiciliar em substituição à internação hospitalar deve obedecer às normas vigentes da Anvisa, hoje a RDC 917/2024. Quando a atenção domiciliar não substitui uma internação, vale a previsão contratual ou a negociação entre as partes. A obrigação de cobertura em casos concretos é tema frequente no Judiciário; tratamos do assunto no post Em quais casos o plano de saúde paga pelo home care? [confirmar URL]

Fontes